Assim que chegamos ao campo, subimos para a aldeia a fim de darmos assistência em mais uma ceia do Senhor que seria ali realizada. Gostaria aqui de deixar um relato de como é feita por aqui e como podemos aprender com povos de culturas diferentes. Aqui na região as ceias são um pouquinho diferentes do que estamos acostumados nas igrejas. Durante o curso do rio em cada microrregião algumas aldeias que são evangélicas fazem um tipo de “aliança” de comunhão e assim cada mês a ceia é realizada em uma aldeia diferente, fazendo o rodízio entre 2 a 5 aldeias. Assim a “chegada”, como eles dizem, se dá no sábado do meio dia em diante, aqueles que chegam até as 14h ou 15h são recebidos pela aldeia ainda na beira do rio, e os anfitriões estão prontos para carregar as malas dos irmãos visitantes. Depois das malas carregadas, é hora de receber o pessoal no salão principal, onde é servida a “Quinhampira”, traduzindo: é peixe com pimenta (e haja pimenta!). Por aqui o pessoal ama pimenta, e quanto mais ardida melhor, e nós que somos “fracos” sofremos um pouco com o ardor, mas ficamos felizes com a barriga cheia. No momento antes da alimentação, os visitantes se apresentam, todos fazem os cumprimentos de acordo com o costume, e terminada a recepção oram e comem.

Logo em seguida, cada um pega sua rede para atar onde passará aqueles dias. Sempre há um pequeno barracão para recepcionar os visitantes, feito conforme os costumes locais. Às 17h50min se ouve o soar do sino, “Dim, dim, Dim”: é hora do “caribé”, bebida típica do povo Baniwa, feita de beiju (que se parece com tapioca) misturado com água. Os pratos (ou pequenas vasilhas) dos visitantes são colocados ao chão, em frente do banco onde estão sentados, e a equipe da aldeia passa de prato em prato servindo a todos. Nesse momento ouve-se as vozes e expressões alegres, todos em um bom diálogo, mas ninguém come nada. Até que a última pessoa seja servida, daí conferem para terem a certeza de que todos foram servidos, então é hora de orar agradecendo e, enfim, se alimentar.

            Às 19h, ouve-se de novo o sino tocar: é hora de irem ao culto. É feita uma liturgia seguida de louvores e testemunhos de como Deus abençoou na viagem, livrou alguém ou providenciou para que estivessem ali. Há palavras de louvores a Deus e, em seguida, o momento da exposição da Palavra. O culto finaliza por volta das 22h com mais um momento de “Caribé” para todos. Porém não para por aí, uma vez que o culto foi finalizado, há um aviso de que o louvor a Deus seguirá até aguentarem, e assim vão noite adentro.

            Às 3 horas da manhã toca-se o sino, o ancião da aldeia está chamando o pessoal para o culto de oração da madrugada. Nesse culto não há somente oração, mas também muito louvor, e assim, mesmo quem fica na rede com intenção de dormir é acordado com o alto som dos louvores tocados com o ritmo da região, ritmos alegres para o pessoal daqui, porém ainda estou me acostumando, pois lembra nossos ritmos de forró “risca faca” ou “pé de serra” como se diz no interior de Minas.

            O sol nasce e os irmãos dão uma pausa para arrumar o salão para o mingau da manhã onde é servida a “Quinhampira” (peixe com pimenta), frango (que compraram na cidade próxima), mingau de farinha, mingau de goma (que é feito da mandioca), açaí (etc). Há uma devocional, oração e a comida está servida. Às 9h inicia-se o culto que segue de louvores e pregação até ao meio dia, quando é novamente servida a alimentação. Quando todos estão satisfeitos seguem para suas redes para descansarem um pouco.

Mas às 14h já se ouve um apito: são os jovens passando animados, correndo, é hora do jogo de futebol. Não somente o jogo, mas todos ficam ali sentados em volta do campo perto de parentes ou conhecidos mantendo comunhão, até o soar do próximo sino, às 17h, avisando que é hora do banho no rio, pois em seguida é o caribé e todos têm que estar prontos para o culto às 19h. Quando chega a noite, aí sim todos estão arrumados e prontos para a ceia do Senhor: é o momento de cear e celebrar a salvação em Cristo, e não só isso, como mostrar na prática como a igreja de Cristo vive em comunhão e como em Jesus somos um só corpo para que todos creiam.

Sempre que há visitantes que não são crentes, eles têm a oportunidade de evangelizar e fazem questão de mostrar e dizer: “nós evangélicos, é assim que vivemos, diferente”. E em todo esse ciclo é onde está a celebração da Ceia. Diferente, não é mesmo?!!

 

Ademir Menezes

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