COOPERADORES DE DEUS*

O Ministério como Privilégio

 

Cácio Silva**

 

Depois de dez anos de treinamento e muito trabalho, no início de 2006 Elisângela e eu seguia finalmente para o campo missionário. Partindo de Manaus, viajávamos de barco subindo o Rio Negro, numa viagem de quatro dias na bela e inóspita Floresta Amazônica. A fotografia era algo deslumbrante! As águas negras (por isso o nome do rio!), mas parecidas com um rio de Coca-Cola, se contrastando com o branco dos enormes bancos de areia, que às vezes parecem verdadeiras dunas no leito do rio. Nas margens, as árvores se despontando numa incrível diversidade e beleza, algumas frondosas, outras esguias e ainda outras soberanas sobre as demais em sua altura. O sol causticante do dia disputava com o vento que tentava trazer frescor. Às vezes, além do frescor provocavam também fortes “banzeiros” (ondas) que solapavam o barco e tornava a viagem mais emocionante. Na ausência dos ventos, o rio se tornava um espelho d’água que fazia confundir nuvens com água, céu com terra. E o mais incrível era o nascer e o por do sol. Imagens indescritíveis e nenhuma igual à outra, evidenciando as diferentes tonalidades do verde da floresta. Algo fantástico de se ver!

Mas ao final do quarto dia de viagem, já à noite, o barco chocou-se numa pedra, houve uma avaria no casco, a água começou a inundar o porão e instaurou-se um clima de desespero entre os cerca de duzentos passageiros. Apesar do cenário propício para uma grande tragédia, Deus operou livramento e todos foram levados ilesos para uma ilha em pequenos botes. Sob as grandes árvores, em meio aos muitos cipós e raízes, na amedrontadora escuridão da floresta, ficamos esperando pelo resgate, enquanto muitas interrogações vinham à mente. No porão do barco estavam nossas quatorze caixas com objetos pessoais, dentre as quais, oito caixas de livros com o melhor que tínhamos na nossa biblioteca pessoal. No fervilhar dos pensamentos, o Senhor me trouxe à mente Filipenses 1.29: “Pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele” (NVI). Entendi naquela hora, que até os sofrimentos do ministério são privilégios de Deus para nossas vidas.

Há duas verdades bíblicas que precisamos entender sobre a missão e, com “missão”, refiro-me à ação de Deus em expandir o Seu próprio reino sobre a face da terra.

1) A missão não é da igreja e sim do próprio Deus. A igreja não possui a missão e sim é possuída por ela. Não é senhora da missão e sim serva dela. A missão não é da igreja porque a igreja não pode levá-la à cabo. Se não podemos converter um amigo chegado, muito menos um indígena perdido no meio da floresta. Somente Deus pode fazê-lo e por isso a missão é d’Ele próprio. A missão é de Deus e é Ele quem está expandindo o Seu reino sobre a terra.

Apesar das muitas barreiras ao evangelho, dos diferentes tipos de restrições à ação missionária, as notícias que temos apontam para o avanço da mensagem nas mais diferentes e difíceis partes do mundo. No período apostólico e pós-apostólico, à medida que a igreja era perseguida ela crescia, ao longo da história mesmo quando minada por heresias e corrupção, o remanescendo fiel sempre sobreviveu e, hoje, mesmo com resistências por um lado, secularismo por outro, a igreja segue avançado. A missão é de Deus, por isso ninguém pode detê-la.

 

2) A missão é de Deus, mas a igreja participa da Sua missão. Deus, que não depende de nós e poderia fazer tudo sozinho, decidiu, na Sua soberania, convocar a igreja para participar do Seu trabalho. Não há participação humana na conversão, mas a igreja participa ativa e efetivamente na proclamação. Mesmo onde ocorrem movimentos de forte atração ao evangelho com limitada abertura para a proclamação, a igreja sempre se faz necessária para discipular, treinar liderança, traduzir a Palavra.

A igreja não é dona da missão, mas ela participa da missão de Deus. A igreja é convocada para trabalhar com Deus no Seu trabalho e é por isso que Paulo nos chama de “cooperadores de Deus” (1 Co 3.9). A ideia é que Deus está operando ou trabalhando e nós estamos operando ou trabalhando com Ele, no trabalho d’Ele. Deus está expandindo Seu reino sobre a terra e nós participamos desse movimento de expansão.

Se isso é fato, e creio que é, antes de ser uma responsabilidade o ministério cristão é um privilégio. O Rei do universo nos dá o privilégio de trabalhar com Ele no Seu trabalho. Minha esposa e eu não somos pobres coitados enviados para a Amazônia. Somos, sim, privilegiados por servir a Deus ali. Você é um privilegiado quando desenvolve seu ministério onde está. Quando lança a semente por onde passa. Quando se compromete com sua igreja local e serve ao Senhor ali.

Os problemas sempre surgem. Os ventos contrários não tardam. As corredeiras da vida ameaçam nossa embarcação. Mas até os sofrimentos do ministério são privilégios de Deus para nossas vidas. Usufrua do seu privilégio.

 

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*Revista Alcance, ano X, n.48. São Paulo: APMT, 2013. p.13.

** Pastor presbiteriano e missionário entre indígenas da Amazônia, pela APMT e WEC Internacional.

 

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